Belém é "bizarra"?
A Cidade só surge depois da
floresta?
O Lorax, filme de 2012, apresenta
de forma lúdica os efeitos da exploração capitalista sobre a natureza e as
consequências da devastação desenvolvida para alimentar uma sociedade de
consumo. O filme possui uma narrativa simples e objetiva: conta a história de
um garoto, que, vivendo em uma distopia onde as cidades são de plástico e o ar
respirável é uma commodity, parte em uma aventura em um mundo desolado
em busca da semente da última árvore. Nesse processo, o Lorax, uma criatura
mística protetora da natureza, conta a história de como a cidade em que vive um
dia foi um paraíso idílico, com rios, florestas e animais cantantes, até o
momento em que chega um sujeito e explora até a exaustão absoluta todos os
recursos do lugar.
Apresentar esse contraste entre o
meio ambiente natural (a floresta intocada) a ser substituído pelo meio ambiente
artificial (a cidade) é excelente para exemplificar os processos de produção e
transformação do espaço. Contudo, ao compreender processos antropológicos na
ecologia, entende-se que essa é só uma das maneiras de escrever uma história. A
percepção binária sobre esse conceito não comporta a existência de lugares além
dessa dualidade.
Essa narrativa é historicamente
potencializada no contexto brasileiro, principalmente em razão de sua percepção
de “progresso”. Os grandes centros financeiros e econômicos do país,
localizados na Região Sudeste, são tomados por indústrias em um processo que
valorizou mais a produção de capital do que a preservação da Mata Atlântica,
aos moldes da Europa – de onde surgiu esse conceito. Uma vez que atividades
extrativistas e sustentáveis são substituídas por maquinários e indústrias
nesse contexto, é fácil averiguar a narrativa da substituição de um meio
ambiente natural pelo antropológico. A projeção desse trauma histórico sobre a
Amazônia reflete-se na percepção que o restante do país tem sobre essa região.
Na madrugada do dia 13 de dezembro, em um show realizado em Belém do
Pará, a cantora mineira Marina Sena realizou uma pausa para interagir com o
público. O que chamou a atenção foi que, ao chamar Belém de o lugar “mais
‘Coisas Naturais’ [referência ao seu novo álbum]”, Marina afirmou que a cidade
é “bizarra” por “ter essa modernidade” apesar de possuir essa “proximidade
muito grande com a floresta”.
Embora o show tenha continuado após esse evento, restou esse sabor
agridoce na boca de alguns – afinal, bizarro não é um termo comum no
léxico paraense. Duas ideias sobre isso:
a)
Para
quem chegar de avião em Belém do Pará, enxergar uma metrópole despontando meio
a uma floresta e imensos rios é uma visão impressionante.
b)
O Brasil
tem dificuldade em perceber a região amazônica, historicamente lida a partir de
suas florestas, intocável e exótica, como algo para além dessas narrativas.
No caso de Marina, não foi por maldade – foi só estranhamento. Para quem
mora em São Paulo (a floresta de concreto brasileira), entender a modernidade,
com seus prédios, luzes e sons, parece incompatível com o conceito de natureza,
como nos rios e florestas que cercam Belém.
Contudo, essas duas cidades têm impressões bastante distintas sobre a
natureza: apesar de seu cenário cinza, a Capital Paulista possui cobertura
vegetal em mais da metade de seu território. Ao passo, Belém figura entre as 6
capitais menos arborizadas do país (IBGE, 2022). Essa dicotomia surge a partir
de uma cultura de desenvolvimento urbano diferente para cada um desses
contextos. Ver Belém de cima para baixo revela uma cidade e uma floresta, ao
passo que caminhar nas suas periferias mostra que falta cuidado em integrar a
floresta às ruas – e é nesse cenário que mora mais da metade de sua população.
A coexistência entre esses meios ambientes é exótica para quem vem de
fora. Ver um lugar em que esses dois meios ambientes estão juntos, mesmo que
paralelos, provoca um choque. Essa visão perpetua a lógica binária de
que, para ser moderno, é preciso eliminar as coisas naturais.
Enquanto o olhar estrangeiro se
choca com a Amazônia, a realidade local opera em uma frequência diferente – a
da Amazônia Urbana, metropolitana, “moderna”. A estranheza de Marina Sena e de
outros diante da contemporaneidade de Belém não fala sobre a cidade, mas sobre um
olhar que ainda não possuem.
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